Ismália: Trilogia da Consciência
- José Marcos Trad

- Apr 14
- 5 min read
Updated: Aug 24

ISMÁLIA ¹
Alphonsus de Guimaraens
1870 – 1921
(Tempo de ilusão)
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
¹ Texto conforme a versão final, publicada postumamente em 1923, com atualização ortográfica. O poema teve quatro versões: saiu pela primeira vez em 1910, em A Gazeta (São Paulo), sob o nome de "Ophelia"; a lição de O Alfinete (Mariana/MG), nº 18, de 17 de junho de 1915 — consultada no acervo do Museu Casa Alphonsus de Guimaraens —, mantém "Ophelia" e já traz o verso "As asas para voar"; o nome Ismália aparece apenas na edição póstuma.
O DESPERTAR DE ISMÁLIA
José Marcos Trad
(Tempo de despertar)
Quando Ismália despertou
foi-lhe penoso aceitar:
a lua que tanto amou
era um reflexo no mar.
Ao despetar, busca o céu
mas o ego sibila: o mar...
a razão é fogaréu
da consciência estelar.
Recusa, lúcida, o mel
do falso gêmeo luar,
o mar fingia ser céu,
a lua, vida no mar.
E as asas livres de véus,
tecidas de par em par,
sustêm Ismália nos céus,
longe das sinas do mar.
O anjo que um dia pendeu
da torre à luz do luar,
toma das notas de Orfeu
e canta, livre do mar.
A REDENÇÃO DE ISMÁLIA
José Marcos Trad
(Tempo de colheita e reparação)
Quando Ismália percebeu,
perdera a vida a sonhar,
buscando as luzes do céu
presa ao fascínio do mar.
Mas da ilusão renasceu
para a verdade solar,
carta náutica do céu
aos viajores do mar.
Vencidas as ilusões,
vivia perto do mar,
do céu colhera lições
nas dores do despertar.
Agora, entregue ao buril
das provações e da dor,
as aflições que pariu
repara com destemor.
E assim, da messe de fel,
ruflaram asas no ar...
sua alma subiu ao céu,
sua luz desceu ao mar.
Ismália: Trilogia da Consciência
Posfácio: o mito de Ismália além da torre
O poema Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, é um pequeno mito marcado pelo desejo de ascender ao céu e pelo naufrágio no mar da ilusão. Nele, a imagem das duas luas, uma no céu, outra refletida nas águas do mar, hipnotiza a alma de quem lê, como se a própria consciência se dividisse entre o zênite e o abismo. Entre ambas, Ismália oscila, sem saber se sobe ou se desce.
Neste trabalho, proponho uma continuidade poética para Ismália. À Ismália de Alphonsus de Guimaraens somaram-se O Despertar de Ismália e A Redenção de Ismália, compondo três blocos de 20 versos heptassílabos.
Parti, assim, do poema de Alphonsus e uni, por fio invisível, a ilusão, o despertar e a colheita.
No segundo bloco, Ismália descobre, nesta leitura, à luz da razão, que uma das luas só pode ser ilusão. Dá-se, então, o despertar: não um fim da loucura, mas o começo da lucidez.
No terceiro bloco, o tempo não é mais de engano, nem apenas de despertar, mas de colheita e reparação: a alma colhe o que semeou.
Assim, o mito de Ismália deixa de ser apenas o retrato de uma alma despedaçada pelo fascínio da ilusão. Torna-se um itinerário interior, em que a incompletude, em vez de ruína, revela o tropismo íntimo rumo à inexorável perfeição.
A Ismália de Alphonsus não mais precisa escolher entre céu e mar, pois comunga dos dois planos: a alma no céu, a luz da alma no mar.
Nota de gênese:
Antes de receber o nome de Ismália, a personagem apareceu como Ophelia em versões anteriores do poema de Alphonsus de Guimaraens. Ao longo de suas sucessivas reelaborações, o texto foi se afastando progressivamente da referência nominal à heroína shakespeariana e consolidando imagens que se tornariam essenciais à versão final: o anjo, as asas, o céu e o mar.
Essa trajetória permite entrever, na própria história textual do poema, uma transformação simbólica: a personagem que inicialmente se encontra sob o signo da queda passa a ser cada vez mais associada ao voo. Na versão final, as asas já não são apenas imagem do desvario; são também o instrumento pelo qual a alma se eleva:
“As asas que Deus lhe deu Ruflaram de par em par...”
É a partir dessa direção simbólica, e não como pretensão de completar uma intenção autoral que Alphonsus não chegou a declarar, que esta Trilogia da Consciência se constrói. O Despertar de Ismália e A Redenção de Ismália retomam imagens e tensões do poema original para conduzi-las a um percurso interior de ilusão, lucidez, verdade e reparação.
Assim, a trilogia não pretende afirmar que Alphonsus teria destinado sua Ismália a esse desfecho, mas realizar uma leitura poética que reconhece, nas próprias asas do poema, a possibilidade de um voo que ultrapassa o seu final trágico. Se em Alphonsus a alma sobe ao céu enquanto o corpo desce ao mar, nesta releitura a ascensão não significa abandono do mundo: a alma sobe ao céu e sua luz desce ao mar.
A continuação nasce, portanto, menos do desejo de modificar Ismália do que do impulso de acompanhá-la por alguns passos além da torre, perguntando o que poderia acontecer quando o voo, antes interrompido pela morte, se transformasse em consciência.
Mapa simbólico para a continuação do poema:
Lua (no céu): É o chamado silencioso do alto. Tropismo que não se perde, mesmo quando se perde tudo. Farol que atrai, mas não se confunde com o reflexo.
Lua (no mar): Reflexo que seduz, desejo que se projeta e se toma por real.
Torre: Lugar de sonho e afastamento. Dela, a alma vê, mas se confunde com o que vê.
Mar: Mundo de sensações e ilusões, espelho onde o céu se reflete, distorcido.
Céu: Estado da alma; refúgio da lucidez estelar.
Asas que Deus lhe deu: Dom interior, força íntima de elevação. No desvario, queda; na lucidez, sustento.
Consciência estelar: Conhecimento que se faz consciência. Não é saber, é viver o que sabe.
Falso gêmeo luar: Meia verdade, mais perigosa que a própria mentira.
Toma das notas de Orfeu: assume a linguagem órfica; o canto organiza o caos interior e consuma a libertação.
Carta náutica do céu: Bússola das almas, sob a luz da verdade. Não evita o mar, ensina a atravessá-lo.
Messe de fel: Colheita amarga da existência, de onde parte o voo da iluminação interior.
Luz da alma no mar: Presença da alma no mundo, orientando caminhos.
Coda Ismália: Da ilusão do ego à luz da razão, da razão à lucidez, da lucidez à verdade que liberta, da verdade à reparação, e da reparação, à iluminação interior. Este trabalho nasce como uma leitura particular, mas reverente, de Ismália, de Alphonsus de Guimaraens.“O Despertar de Ismália” e “A Redenção de Ismália” não pretendem rivalizar com o poema original, mas caminhar ao seu lado, como continuação interior e gesto de retribuição a quem primeiro sonhou Ismália em versos.
Poemas de José Marcos Trad
Abr/26


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